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postado por Elke

CARECA E PIXOTE SE MEXER COM NOIS

| Música

    Venha ouvir E Se Mexer Com Nóis, Vai Dar Guerra, Os Verme Já Era e muitas outras músicas!. Mc Careca - Se mexer com nóis (Letra e música para ouvir) - Se mexer com nós E se mexer com nós a bala. pedindo a liberdade do Binho e do Pixote. Letra e música de “Se Mexer Com Nois“ de Mc Careca - E se mexer com Mas se mexer com nóis, a bala come Pedindo a liberdade do Bill e do Pixote.

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    Que ideia fixa! Ao mesmo tempo, quando os filmes apresentados so oriundos de contos, procurei enfatizar determinados processos realizados pelos roteiristas e diretores: Joaquim Pedro uniu contos de vrios livros de Dalton Trevisan e dividiu-os entre trs personagens; Robert Altman e seu co-roteirista Frank Barhydt criaram duas personagens que trabalham com msica - e as melodias sonoras proferidas pela cantora de jazz e pela violoncelista ajudam na fluncia das partes de Short Cuts. ISBN 1. Por outro lado, ao citar seus preferidos Bresson, Renoir, Max Ophuls The research focuses on the process of adapting of short stories by Caio Fernando Abreu for a feature film screenplay. Aqui o flashback no s evidencia a beleza do tempo passado, como possibilita perceber que h uma referncia a um contexto ntido. Em tempo: as peas do Teatro Completo , de Caio Fernando Abreu, sero evocadas sempre que necessrio. Ao mesmo tempo, a citao de Hayworth evidencia a influncia das estrelas de cinema na vida do narrador. Dava para ser casual: — Nada de mais, meu ministro. Galdino deixou a pausa doer um pouco em Beto e continuou: — O governo é o partido, meu caro. Soco no estmago p. I have to get across my admiration for your generosity supporting persons who really want assistance with the area. Dos anos para c: arte e cultura do espetculo 3. Se Altman e Anderson ligam suas histrias com eventos terremoto, chuva de sapos , Haneke prefere radicalizar o desencontro de seus personagens com telas pretas intercalando as cenas. Querida, o que é isso? A liberdade de Renoir tambm vista em Epstein e Joaquim Pedro apenas uma das possibilidades de adaptao defendida por um certo pensamento cinematogrfico. Having a look forward to peer you. Tem certeza?! Essa ideia aparece quando Prsio comea a se recompor da briga com o amigo. Alm de Scorsese, h a presena de Fellini.

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    A gente vai destravar o dinheiro. Tem que ter paciência, experimentar um gatilho aqui, outro ali, pra ir dando uma enganada no sistema. Somos um partido progressista. Nosso idioma é outro. Enganar que eu digo é enganar a burocracia. A burrocracia! Galdino notou Juvenal contendo uma ameaça de sorriso. JJ pediu ao visitante que falasse um pouco sobre a sua empresa.

    Salvo engano, o nerd tatu era uma potência. Dessa vez, era para informar que precisaria se ausentar por uma semana. O presidente perguntou-lhe se estava tudo bem e ela o tranquilizou: mamografia e mais um par de exames — rotina. Juvenal aproveitou para comunicar que também precisaria se ausentar por uma semana. Foi logo esclarecendo que se tratava apenas de um checkup.

    Uma epidemia de exames? Quando Juvenal chegou à sala onde estava Marivaldo, encontrou-o dormindo. Carmelo anotou alguma coisa em sua cadernetinha — o que sempre fazia quando queria mostrar aos chefes que a providência seria tomada.

    Uma coreografia. JJ aproveitou e desdobrou a tarefa: — Ah, e anota aí pro Sander plantar uma notinha sobre isso com o Konder. O escoteiro sabia que se tratava do jornalista da Tribuna do Poder, um dos jornais mais influentes do país, mas gostava de parecer meticuloso: — O Konder da Tribuna? Ele é nosso. O deputado estranhou: — Ué, Marivaldo.

    Só acho que tem coisa mais interessante pra fazer com um cara grande desses. Vou ver com meu pessoal no Banco de Fomento como dar uma cutucada nesse mercado.

    Vamos montar uma caprichada aí pro Mad Max. E o pedido de Marivaldo Valadares foi aceito: ele poderia indicar a ONG com a qual iniciaria seu projeto com o governo. No que recebeu o ok, pediu licença para ir ao toalete, teclou no celular, foi para um canto do lobby e anunciou ao interlocutor: — Beto Leal, te prepara que tu vai crescer.

    Quem é o monstro? Alvoroço no bar. Luana estava caída entre as mesas, aos pés de Beto Leal. Um policial se aproximou, mandando os curiosos recuarem. Tomou o pulso de Luana. Ela começou a voltar a si. O garçom tentava estancar o sangue com um guardanapo e uma pedra de gelo. Beto Leal cortou: — Espera aí, meu caro! Ela mal abriu os olhos Deixa a garota respirar.

    Tem um acidente com vítima ferida e por enquanto o senhor é suspeito. Ainda muito tonta e meio fora do ar, Luana balbuciou: — Um monstro Um monstro Perdeu a paciência, certo de que estava diante de uma briga de casal, e deu o interrogatório por encerrado: — Todo mundo pra viatura.

    Orientou outro PM que se aproximara a conduzir Beto Leal até o carro da polícia e pegou Luana, ainda grogue, no colo. Iriam todos para uma emergência hospitalar e, assim que possível, para a delegacia. Beto disse que aquilo era um equívoco e que o policial ia se arrepender do que estava fazendo.

    Agora também por desacato a autoridade. No que viu Luana e Beto sendo colocados no carro da polícia, Pedro correu para pegar seu carro e segui-los. Pulou no carro e conseguiu alcançar a patrulha. Seguiu-a até a emergência do Miguel Couto. Antes de brigar com o pai, Luana pedira a ele uma vaga para Pedro no escritório de advocacia que atendia o Grupo Maxwell. Agora ele via Luana ser levada pela polícia para uma emergência hospitalar, sem ter ideia do que estava se passando.

    Quando Pedro entrou na emergência, Luana ainda estava zonza e nem notou a sua chegada. O médico perguntou-lhe se era namorado dela. Corta quanto for preciso. A princesa parecia mesmo decidida a renunciar. Foi esse homem quem a agrediu no bar? Pedro continuava sem saber o que tinha acontecido e ficou chocado com a hipótese envolvendo seu professor.

    Luana olhou para Beto e falou: — Era horrível. Tinha uma cabeça pequena que parecia uma pinça de caranguejo, e um casco cheio de pelos. As patas eram finas e cabeludas que nem uma aranha. O policial olhou para o médico, que olhou para o policial. O homem da lei deu um suspiro, ajeitou a cartucheira e puxou o médico para um canto da sala: — Puta que pariu, mais uma bêbada.

    O PM se mandou sem cumprimentar ninguém. Ela segurou o rosto dele e retribuiu o beijo. Pedro desfez o clima: — Acontece? Tem que examinar direito. Foi interrompido por gritos na entrada da emergência. Era Bob Maxwell, perguntando onde estava sua filha.

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    Cerca de uma hora depois de avisado, o magnata cobrira a ponte aérea com seu jatinho e estava diante do leito de Luana. Ela fuzilou Pedro com o olhar: traidor. Ela cumprira a promessa de sumir sem deixar pistas. Sabia que poderia ser rechaçado. Emocionado com o tom amistoso da filha, Maxwell foi até a beira da cama. Pedro aproveitou para se aproximar.

    Despediu-se e disse que fizera o que fizera pensando nela. Ela disse que entendia — sendo, como sempre, justa. Mas fria. Estou sendo muito bem atendida aqui. Beto Leal entrou na conversa: — Bem, é como a maioria do povo é atendida É porque o país é governado por gente inepta. Ou, mais precisamente, vagabunda. Agora essa emergência vai ser um lugar digno, se ninguém atrapalhar A indireta foi devolvida por Maxwell ao seu estilo: — Luana, nem chegamos a nos apresentar.

    Quem é esse seu amigo? Beto, você me leva pra casa? O silêncio que tomou a sala da emergência foi quebrado pelo toque do telefone de Beto, que pediu licença para atender. Era Marivaldo Valadares. Nem disse alô: foi logo avisando que Beto Leal precisava ir ao seu encontro imediatamente.

    Desligou sem esperar a resposta. Vendo seu professor colocar de volta o celular no bolso, Luana sorriu: — Tô pronta, Beto. Beto se divertia com o estilo de Marivaldo, ou com a falta de estilo — enfim, com a esquisitice da figura. Gostava dele de graça. Beto acabara de criar uma ONG de assistência social. Sonhava largar o escritório de advocacia e viver dela.

    Intrigado, Beto insistiu, apertou, fustigou e acabou chegando à incrível verdade: Marivaldo prendia a língua de propósito. Beto Leal mudara a vida de Marivaldo. Com seu carisma, Beto virara uma espécie de embaixador de Marivaldo.

    E, uma vez quebrada a barreira inicial da timidez, Valadares conseguia se impor com o show de variedades do seu computador mental. O embaixador acabou conseguindo quebrar também o isolamento do amigo perante as mulheres — que era crônico.

    Como garoto-propaganda do amigo, Beto aproximou Marivaldo da vasta flora feminina que o cercava. Beto levou Marivaldo praticamente à beira da cama com a moça. No dia seguinte à conquista, Valadares quase se ajoelhou diante do colega. Beto Leal produziu também o segundo encontro do nerd com sua princesa. Ele tinha levado um fora da sua deusa. Mesmo com os acidentes de trabalho, o grande resultado daquele MBA para Marivaldo Valadares foi sair da concha.

    Graças a Beto. Tinha chegado a hora de Marivaldo mudar a vida de Beto Leal. Mas havia também o chamado urgente de Marivaldo.

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    O professor se dirigiu carinhosamente à aluna: — Que bom ver você recuperada, Luana. Fico mais tranquilo, porque apareceu uma emergência que eu vou ter que resolver É isso? Teve que ouvir o oponente: — Mas o que seria uma emergência para um professor a esta hora da noite? Corrigir uma prova? Maxwell devolveu que ele poderia guardar o comício para seus alunos inocentes.

    Correram para a saída do hospital e a encontraram na calçada. Quando os viu chegando, Luana pulou dentro do primeiro ônibus que avistou. Luana estava morando de favor com Pedro e Clara desde que rompera com a família. Prometia contribuir assim que arranjasse trabalho. Mas o quase casamento tinha estremecido naquela noite por causa de Luana. Ela tinha tido a ideia, junto com Pedro, de convidar Beto Leal, professor de ambos no mestrado, para um chope.

    A aula dele era diferente, cheia de pinceladas filosóficas. Beto pregava a liberdade, tinha fundado uma ONG e era um sedutor. No bar, logo ficou claro que o fascínio dela pelo professor era mais do que intelectual. Aí o telefone do professor tocou.

    Ele pediu licença para atender, levantou-se e a mesa ficou muda. Pedro quebrou o silêncio como se fosse um crítico teatral depois do primeiro ato: — Professor bicho-grilo que só fala de si. Nem concordou. Parecia meio hipnotizada. E o professor voltou ao seu lugar, se desculpando pelo telefonema.

    Mesa de bar é um perigo. Saí de casa porque fui parar sem querer num site sobre suicídio e me senti interessada. Ela estava falando sério. O professor se desculpou de novo. O desabafo paralisou a mesa. Clara tentou relativizar a crítica, lembrando que Luana ainda estava magoada com a família. O professor elogiou a generosidade de Pedro e Clara, ao oferecer um teto à amiga, reiterou que eles formavam um casal legal e dirigiu-se a Luana: — E você? Seja qual for a outra metade. Beto procurou manter a naturalidade ante o sinal vermelho: — Ah, é?

    Mas enriquecer jogando tênis?! A elite adora inventar brinquedo caro. Beto tentou parecer sério: — Ah Vale-tudo, né? Ninguém riu. Clara enfiou o rosto na tela do celular. Ele se retratou: — Piada idiota. A filosofia do professor acendeu o melhor sorriso de Luana — que era raro e iluminava tudo.

    E vice-versa. O gole de chope estalou com a nova ideia do professor: os três jovens estavam convidados a conhecer sua ONG, a Resgate. Luana estava impressionada com Beto, com o seu desprendimento do mundo convencional — aquele mesmo que a intoxicava. Replicou: — Eu quero. Sabia que você ia querer conhecer a Resgate. Eu quero trabalhar na Resgate. Também é o que eu quero fazer na vida.

    A flechada de Luana desconcertou Beto. Pedro achou o índice elevado e desconfiou da pesquisa. Inclusive pela própria ONU — rebateu o aluno. Pedro duvidou de novo do dado: — Essa pesquisa foi feita onde? A jornalista levantou-se, pegou sua bolsa e falou para meio bar ouvir: — Pedro, faz o seguinte: pede logo à Luana pra tirar a roupa e tenta comprovar a sua tese.

    Pedro congelou, e foi Luana quem reagiu: — Para com isso, Clara. Isso é uma conversa séria, foi só um exemplo. Ótimo exemplo. Você é muito melhor do que isso. Senta aí. Vou pensar grande no meu travesseiro. Virou as costas e foi embora. Mas voltou: — Ah, Pedro. Luana desceu do ônibus de volta do hospital e tocou o interfone do apartamento de Clara e Pedro, num prédio antigo próximo à Praia de Botafogo. Felizmente Pedro ainda estava acordado e abriu a porta.

    Luana cedeu seu quarto a ele, dizendo que ela dormiria na sala. Pedro respondeu que as chances de ela de dormir na sala, segundo a ONU, eram zero. Pedro disse que estava arrependido de ter chamado o pai dela ao hospital, ainda mais para vê-la com aquele curativo malfeito e o cabelo mal cortado.

    Ele ofereceu gelo para aplicar no ferimento e perguntou o que, afinal, tinha acontecido no bar. Dois chopes. Marinelson, Florisvaldo, uma coisa assim. Pedro estava intrigado, mas viu que o episódio ainda perturbava Luana e recomendou-lhe que fosse descansar. Esta cama é minha. Você vai pro seu quarto. Luana se manteve de olhos fechados, mas abriu seu sorriso luminoso. Por alguns segundos, o prazer dominou Luana, antecedendo a consciência. E você diz que quer casar com ela. Tenho pena de você.

    Atrasado, chegou voando à pequena sala comercial onde funcionava a Resgate, mas foi paralisado por uma surpresa: Luana.

    No caminho de Botafogo para Copacabana, a princesa faminta entrou num botequim. Desculpe, mas rompi com a minha família, sou estudante e estou na rua sem nada.

    Chamou o gerente, que pelo curativo tosco na cabeça acreditou que a jovem burguesa estivesse mesmo na rua. A história triste, no caso, era verdadeira — e fora contada sem drama, o que lhe dava credibilidade. Mas se eu for fazer esse favor a todo mundo que passa necessidade eu fecho. O senhor tem a minha palavra. Assistindo à cena, o balconista riu: — Guarda a palavra dela aí na geladeira, Manéu!

    Luana ouvia tudo impassível. O gerente entendeu que estava contratando um problema. Ordenou irritado: — Ô Valdir! Tira logo aí o pedido da garota! A caminhada de cinco quilômetros até o escritório da Resgate pareceu durar cinco anos. Ela passara a vida vendo a rua de dentro de um carro blindado com motorista armado. No curto período com Clara e Pedro, se deslocara quase sempre de carona com eles, fora alguns poucos ônibus. Cruzar a cidade a pé, suada, despenteada, malvestida e anônima, sem a moldura de filha do magnata, era quase um renascimento.

    A porta de vidro da ONG, uma entre dezenas no prédio comercial da avenida Nossa Senhora de Copacabana, estava trancada. Parecia ser uma sala pequena, e Luana caiu em si: Beto Leal deveria trabalhar ali só com um par de assistentes. Se ele tivesse ido viajar, talvez nem fosse abrir o escritório. Enquanto pensava que rumo tomar, pegou no sono. Escorada na parede de boca aberta, com a tosa grosseira acima da testa cheia de esparadrapo e a roupa apertada de Clara , parecia uma boneca de terror.

    Vou cuidar de você. Luana agradeceu, mas repetiu seu nome correto. Cristal deu uma gargalhada. Luana sorriu sem graça, inibida com a irreverência da gerente que nem a conhecia. Cristal lhe ofereceu um café, uma blusa limpa e a troca do seu curativo. As duas primeiras ofertas foram aceitas. Depois de certa insistência, a terceira também — e valeu a pena: Cristal limpou o ferimento e fez um curativo bem mais eficaz e discreto que o do hospital. Com esse nome, eu tinha que te resgatar.

    Mesmo você sendo a diabólica Annabelle. Dessa vez Luana riu junto. Tinha encontrado, enfim, gente de verdade. Beto chegou e deu de cara com a cena do abraço entre Luana e Cristal. Tudo o quê?! Um merda! O recém-chegado quis saber quem era um merda. Marivaldo esclareceu em tom quase inaudível. O problema entre os dois começara na sala de espera de uma clínica de estética.

    O duelo do botox foi abafado por ambas as partes, mas Marivaldo ficara sabendo do caso pelo próprio Juvenal, que lhe contara às gargalhadas. Esse era, no entanto, só o rabo do conflito ministerial. Um carinho ajuda. Se você me chamou aqui pra isso, você enlouqueceu. Tô fora. E a ministra é jeitosa, você vai ver. Eu sou linha direta com o Juvenal, que é o chefe dessa porra toda.

    Foi quando surgiu George Carmelo, o Sombra, vindo da sala de jantar. Homem de confiança do presidente, Carmelo era enviado a reuniões estratégicas. Rosa lhe pediu que falasse da ONG. A ministra estava absolutamente atenta — à voz macia, à pele morena e aos belos olhos do interlocutor. Acostumado em sala de aula com perguntas eventualmente fora de órbita, o professor explicou com jeito que a ONG estava concentrada em ações de resgate social.

    De jeito nenhum! A ministra pareceu aliviada: — Ah, bom. Depois de mais um par de assuntos palpitantes, incrementados por algumas taças de vinho, a ministra falou ao pé do ouvido do cara da ONG: estava louca para dispensar seu carro oficial.

    Afinal, o motorista precisava descansar. Agora é contigo. Golaço, meu amigo! Olha, se você continuar assim, eu vou acabar querendo te dar beijo na boca também. Tomou um banho e começou a projetar a grande mudança.

    Ao chegar à Resgate e deparar com Luana, sentiu um impacto diferente. Ficou aturdida com seu próprio impulso. Completando a festa, Cristal beijou a boca de Luana. O espanto pareceu ressuscitar a princesa Maxwell e a fez recuar. Foi a gerente quem a puxou de volta: — Bem-vinda, Annabelle!

    Beto perguntou o que era aquilo. Cristal informou, sacana, que era assunto de mulher. E que agora era a vez de ele responder, direitinho, quais eram os novos planos para a Resgate.

    Luana aproveitou a deixa e perguntou o que ela ia fazer na ONG. Mas havia vingança melhor para um nerd: ficar mais poderoso que todos os seus torturadores juntos. E mais rico. Sabia cativar as pessoas. Deixou esperando em sua sala o chefe de gabinete do presidente, George Carmelo, o porta-voz da Presidência, Alex Sander, e o tesoureiro do partido, Galdino Silva, e foi pessoalmente receber Marivaldo.

    Esta era a mensagem do governo de esquerda: igualdade e companheirismo. Marivaldo — objetou o Sombra, com sua polidez de almanaque. Explicou que as políticas sociais seriam a melhor porta de entrada para as operações financeiras que pretendia montar, porque eram mais propícias às parcerias com ONGs: — Nesse tipo de convênio, no que a verba sai do orçamento do ministério pro caixa da ONG, ela some do radar.

    Isso porque o balanço de uma ONG é Bem, o balanço de uma ONG é o que a gente quiser que ele seja. Em dois minutos o estado-maior do novo governo tinha voltado a olhar para Marivaldo como uma turma de colegiais, balançando a cabeça: sim, eles percebiam a liberdade que aquilo lhes dava. Com o pescoço a salvo, ao menos temporariamente, o tatu-bola foi desenrolando de novo seu plano.

    Autorizado, ele inseriu um preâmbulo: a ideia fora desenvolvida pelo advogado Beto Leal, um militante dos direitos sociais — que inclusive tinha bom trânsito com a ministra Maria Rosa. Era a reserva de mercado para a ONG do parceiro. Mas argumentou que ficaria estranho um fundo social vinculado à Casa Civil. Propôs que deixassem na própria ONU, sabendo que isso atenderia Juvenal — afinal, agora ele mandava em tudo mesmo.

    Sabia o que estava dizendo. Mas, veja Mas do dinheiro solto eu vou falar agora. Ninguém disse nada. Todos imaginaram. Percebem a importância da assessoria jurídica? Pois é o que o governo vai oferecer de graça. O porta-voz sentenciou: — É a Lei da Alforria.

    Aí a tropa exultou. Até o Sombra deixou vazar seu entusiasmo. Lei da Alforria é foda de bom! O jornalista se empolgou: — Posso passar logo uma notinha pro Konder? Os juízes trabalhistas têm que ser conversados. Muito bem conversados. Galdino resolveu comentar o ritual: — Ô, Carmelo. O que você tanto anota aí nesse caderninho? O escoteiro ficou embaraçado com o flagrante e devolveu entre os dentes: — Galdino, você é tesoureiro do partido. Adivinha quem operou o dólar camarada que ele levou?

    Nesse momento o Guia adentrou o recinto, e todos se levantaram. Vim só fumar um charuto com vocês. Talvez fosse. Era típico do Guia: nunca repreendera seu homem forte pelo implante fantasiado de licença médica, mas o castigava em suaves prestações com o seu sarcasmo. E nós vamos mudar, do jeito que for possível. Com os meios possíveis. Na guerra, como na guerra: pra cima deles! Mas o moral da tropa bateu no teto. E mande lembranças à dona Maria e ao seu Oswaldo!

    Mas mandarei suas lembranças com muita honra. O presidente deu meia-volta: — Ué? Mas acharam que Marivaldi ia ficar muito italiano. Aquela nem o Guia conseguiu responder. Boa sorte, Malabares. Como o senhor quiser. Todos foram se levantando e se despedindo alegremente, ao redor de um Marivaldo contrariado com aquele batismo infeliz. Conseguimos andar alguma coisa? No escritório da Resgate, Luana estava diante do professor.

    Ele avisou que a chamada era do contato dele no governo — com a resposta sobre o projeto em que ela seria encaixada. Mandei na lata. Falou e riu sozinho. O homem põe apelido em todo mundo, é o jeito dele Mas de que ele te chamou, afinal? Beto tentou prender o riso. Marivaldo Valadares Faz sentido. Porra, isso é coisa de acrobata. Apelido é marca. Um dos ditadores mais temidos do final do século 20 era conhecido como Baby Doc! E olha que o nome dele era Jean-Claude Duvalier, e o seu é Marivaldo.

    A lógica estava perfeita, mas o exemplo fora um desastre. Qual é o problema com Marivaldo? Fique sabendo que Resgate é um nome de merda! Tenho certeza de que encontro uma ONG com uma aparência melhorzinha. Desligou na cara do parceiro. Beto tirou o telefone do ouvido sem saber dizer a Luana se o plano tinha dado certo ou errado.

    Ele abriu o jogo: o governo tinha aprovado o projeto da Resgate, mas Marivaldo ameaçava roer a corda por causa de um apelido.

    Cristal tomou o celular de Beto: — Vou resolver isso agora. Eu sei o que esse cara quer. Ela se trancou no banheiro e reapareceu cinco minutos depois, devolvendo o celular: — Ele quer falar com você. Tudo resolvido. O advogado pegou o aparelho e se surpreendeu com a voz pacificada do outro lado: — Desculpe, cara. Acho que tô meio alterado com tudo isso. Forte abraço. A ideia da festa da Alforria era uma boa iniciativa de marketing, concordou Beto Leal.

    Com duas observações sutis. A primeira, se Cristal estava consciente de que o malabarista indócil ia querer continuar sendo acalmado por ela na festa — e possivelmente depois da festa também. Sim, ela estava consciente. Pusera o dele na mesa também. Deixou os dois discutindo e se refugiou no banheiro. A ciranda ficara pesada. Confusa, com seu mundo apoiado no tampo de uma privada, decidiu se mandar dali. Pensaria em tudo quando pusesse os pés na rua.

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    O truque de Cristal virara um grande evento político. O brado de Cristal pegou Luana no contrapé, na sua travessia entre o banheiro e a porta de saída. Como assim? Que história é essa? Da sua redoma, a princesa Maxwell só descobrira recentemente a existência da política.

    Seu encantamento com a vitória da esquerda fora o estopim da ruptura com a família — e agora Cristal confirmava que, sim, era um deputado de esquerda que acabara de lhe ceder seus aposentos, pelo período que ela precisasse.

    Ainda assimilava esse, quando veio outro gesto inesperado: Beto lhe entregou um celular. Fica com esse até você poder comprar um. Luana estava contratada. Beto voltou a ver o sorriso que iluminava tudo. Maxwell souber que a filha passou pro lado das empregadas domésticas É capaz de mandar o Exército invadir isso aqui! A personalidade definida da aluna graciosa começava a fazer desaparecer a aluna graciosa. Aos olhos do professor, ia se impondo a mulher. E arrematou, resumindo a Lei da Alforria: — É, agora a conversa chegou à cozinha.

    Beto deu um grito que até a assustou: — Genial! Genial, Luana! Porra, você acabou de criar o slogan da campanha!

    Anota aí, Cristal! É perfeito! É como o povo fala Temos que falar a língua do povo! Luana discordava, e ia argumentar quando um abraço envolvente de Beto a silenciou. Ele precisava correr para um compromisso. E olhou nos olhos dela para dizer que gostaria que fossem juntos à festa da Alforria. Campo minado. Beto sentiu a fragilidade da negativa: — Roupa?! Ela apenas riu. O professor foi embora certo de que virara o jogo.

    No que ele bateu a porta, Cristal decretou que, se o chefe tinha ido embora, elas podiam se mandar também. Antes disso, ia aproveitar a ausência masculina para outra boa causa: informar que o deputado Fred Fraga, que oferecera sua casa para Luana dormir, era ainda mais interessante ao vivo do que na TV.

    E queria conhecê-la. Daí ter cedido seu próprio quarto a Luana. Descarrega esses demônios todos pelo ralo! Quando eu chegar, faço um curativo novo na boneca exorcizada! Ela atravessou-o e, ao enfiar a chave na porta, ouviu um barulho do lado de dentro.

    Ficou imóvel só escutando, sobressaltada. Eu sou o Fred. Tiroteio na embaixada O deputado Fred Fraga conheceu a nudez total de Luana menos de uma hora depois de vê-la pela primeira vez. Logo lhe ofereceu uma taça de vinho, que ela recusou, desculpando-se: só conseguia pensar em se enfiar no chuveiro. Resolveu entrar logo no banho, depois decidiria como se vestir.

    Pelo menos a ressaca da aventura tinha chegado na hora certa: agora ela estava empregada, ia lutar pelos valores em que acreditava e iniciar uma vida nova. Foi desligar o chuveiro e se dar conta de que, na pressa, se esquecera de pegar uma toalha. Só que no meio do caminho havia um deputado.

    Fred Fraga passava pelo corredor quando Luana saiu do banheiro. Nua e desarmada, ela levou um susto. Ele riu. Querida, o que é isso? Uma armadilha? Acabo de encontrar com ele no corredor, nua. Que tal? O que é pra fazer? Sair andando pela casa pelada e sentar no colo do seu amigo? Luana resolveu se vestir do jeito que dava. O problema era que a blusa marcava todos os desenhos de Luana, como se estivesse produzida para um ensaio sensual.

    Cristal ouviu o recado e engoliu em seco. Ligou para Fred Fraga, nervosa: — Tudo errado, Fred. E pelo visto é feroz. Melhor eu ir agora pra aí.

    Deixa comigo. Ia dormir com fome mesmo. Cristal que ficasse no quarto de Fraga — se é que ainda ia aparecer. Cinco minutos depois, um aroma delicioso invadiu o cômodo. Era um risoto de frutos do mar saindo da panela. O estômago de Luana roncou forte, quase um espasmo. Ia sair do quarto como estava e matar a fome — que novamente lhe doía como a necessidade.

    Fred cozinhava bem e falava melhor ainda. Minha casa é uma espécie de embaixada dos direitos humanos De estômago forrado e entretida pelo carisma de Fraga, um protagonista do mundo autêntico que sonhava conhecer, Luana aceitou o vinho. O petardo encabulou a ex-princesa. Desviando o olhar e o tema, ela voltou a falar de comida.

    Agora, é descobrir como vou pagar um queijo quente e um suco de laranja. Fred parecia entender o seu movimento melhor do que ela própria. Abriu seu sorriso luminoso e propôs um brinde à solidariedade, agora olhando firme nos olhos de Fred. Sorveram o vinho sem deixar de se olhar, e foram aproximando o rosto, quando um estrondo na porta de entrada fez os dois saltarem de susto. A porta se abriu violentamente, e um homem forte de quase dois metros invadiu a sala.

    Luana largou a taça de vinho, que virou sobre sua roupa. O homem passou a vociferar para o deputado: — Banho de sangue! Banho de sangue! Todo mundo metralhado! Fraga gritou de volta: — Que porra é essa?! O gigante parou na frente dele: — Mais de cem mortos, Fraga! Passaram fogo geral! E logo soube que nem visitante era: assim como Cristal, ele alugava um quarto na casa do deputado. A ex-princesa ia morar com um ogro.

    Mas antes ia vê-lo afinar a voz para Fred, que estava furioso: — Como é que você entra na minha casa assim, Sheik?! Mas é que Fred se desculpou com Luana pela boçalidade de Sheik e sugeriu que ela trocasse a roupa encharcada de vinho. Luana costumava ir com os pais — era um ritual quase obrigatório na família.

    Fred Fraga avisou que ia ao seu quarto ligar o computador e tentar colher mais informações sobre o atentado na internet. Bom, vou redigir uma nota do partido sobre o atentado.

    Te ajudo com a nota. Quero que você me ajude com o Sheik. Luana mal a ouviu. O colega de mestrado era advogado de seu pai e podia ter notícias de Londres. A resposta chegou em dez segundos: o casal Maxwell tinha acabado de regressar da capital britânica.

    Aliviada, Luana agradeceu Pedro pela pronta resposta. Enquanto esperava a resposta dos membros do diretório ao seu rascunho, ele o leu em voz alta no meio da sala. O PESSOAL lamentava a perda de vidas humanas no atentado, mas ressaltava que a origem do terrorismo estava no modelo social injusto que os países ricos insistiam em semear.

    Explicou primeiro o ímpeto de Sheik: o gigante era uma espécie de guerrilheiro moderno, treinado para confrontar a polícia e demais estruturas opressoras do sistema. Um progressista passivo é praticamente um conservador. Passividade e conservadorismo compunham o coquetel que tinha asfixiado a filha do magnata.

    E agora ela tinha conseguido atravessar para o outro lado: em vez de brigar com o pai para assistir à virada progressista na TV, estava assistindo à história ao vivo — de dentro de um bunker da esquerda.

    Cristal notou o brilho nos olhos de Luana. Aproveitou para convidar todos para a grande festa da Lei da Alforria, na nova sede da Resgate, e ergueu um brinde à nota lida por Fraga: — Chupa, burguesia! O figurino estava ainda mais exótico — e casualmente sensual, com a blusa muito fina manchada de vinho que ela se recusara a trocar. Profissional, Cristal sentiu o momento e arrastou Sheik para o quarto dele. A sós na sala, Fraga e Luana se aproximaram novamente. Ele olhou dentro dos olhos dela, dizendo que agora via a fera capaz de jogar uma vida de luxo para o alto.

    Convidou-a para ir com ele à festa da Alforria. Ela sorriu, fechou os olhos e esperou o beijo. Agora era o deputado Wally Salvador, colega de partido de Fraga, recém-chegado de Brasília.

    Temos que reagir! Fred Fraga se exasperou. O tal ataque acontecera na capital brasileira mesmo. Uma violência! Chamar um representante do povo de pervertido?! É grave. Agora vai pra casa descansar, você deve estar exausto com essa afronta. Fraga perdeu a paciência: — Porra, Wally! Que ideia fixa! Cuidado que isso ainda acaba em casamento. O próprio Fred percebeu isso um segundo depois do disparo. Mas nessa hora soltou uma risada. Foi uma risada desconcertante, mas acabou relaxando Fraga — que estava preocupado com seu deslize homofóbico diante de Luana.

    Uma nota conjunta. Posso dar uma olhada no texto? Fred entendeu que seu tempo estava se esgotando. Luana pediu licença para ir ao banheiro.

    Cristal foi acionada por mensagem para dar conta de Wally Salvador, pelo amor de Deus. Voltando do banheiro, Luana passou diante da porta aberta do quarto de Sheik.

    Retornando à sala, encontrou Sheik, Cristal e Wally discutindo animadamente sob o olhar atônito de Fraga. Despediu-se de todos, desculpando-se pelo cansaço, e foi para o quarto. Possesso, o deputado socialista estava protestando contra a falta de privacidade. Cristal lembrou que Fraga se orgulhava de dizer que sua casa era uma embaixada. A temperatura baixou. Mas logo ia subir de novo, como sempre acontecia quando o assunto era dinheiro.

    As manifestações traziam militantes, filiados, publicidade, votos — e, consequentemente, cargos. Mas o repasse de verbas vinha caindo por manobra do presidente do sindicato, que queria impor seus candidatos a vereador. Pegou o telefone para ver se tinha recado. Talvez Cristal quisesse falar com ela.

    Ele perguntava se Luana estava bem instalada e lhe oferecia um presente: ela poderia escolher um vestido novo para ir à festa na nova sede da ONG. De novo, o assunto era dinheiro.

    Semana que vem eu pago. É do partido. Nem seu! Esse dinheiro é do Poder Legislativo! Menos, companheiro. Cristal recuou. O deputado tinha os olhos vidrados: — Zero, né?

    Pois é. Lembra quantos votos eu tenho? Mas logo surgiram outros ruídos — primeiro pareciam portas batendo, depois sugeriam móveis sendo arrastados e mais batidas, como se estivesse havendo uma briga. Ela achou que tinha ouvido gritos, depois constatou que eram gemidos. Dessa vez o barulho ia demorar a cessar. Fraga e Cristal estavam se devorando na cama.

    Luana Maxwell apanhou o celular e respondeu à mensagem de Beto: tudo bem aqui, obrigada. E emendou: — Quer casar comigo? A moça quase ficou sem ar com a apoteose romântica. Beijou o ministro ali mesmo, arrancando mais aplausos. Os populares foram ao delírio. O governo resolvera transformar a festa da Alforria em pajelança, reunindo ministros, parlamentares, artistas e intelectuais.

    Fiquei supertranquilo agora. Você acha que tudo vai dar certo por causa da carência ou do surto? Se aquilo era um sinal de que o plano ia dar certo, seria por linhas tortas, concluiu Beto Leal, entrando na festa.

    Depois me diz o que eles acharam. A gerente da ONG respondeu com a especialidade da casa: uma gargalhada. Ela sabia que o mal-estar do chefe tinha um componente enrustido: a dor de cotovelo pela ausência de Luana. Pra, uva ou ma? Natureza viva 5. Caixinha de msica 5. O dia que Jpiter encontrou Saturno 5. Morangos mofados, o conto 5. Ideias e concluses a partir da primeira releitura do livro 5. A primeira escaleta: a primeira vez que o filme foi at o fim 5.

    O roteiro vem com trilha sonora! A permanncia do tempo: o passado uma roupa que no ficou pra trs 5. A construo dos personagens: mudanas at o ltimo dia 5. Um making of do roteiro: conto a conto, as decises, citaes e a presena do cinema 5. Os contos da espinha dorsal: os vrtices da narrativa Caio Fernando Abreu escreveu para o amanh. Isso pode ser visto nas reincidentes reedies de sua obra, nas frequentes anlises acadmicas e nas constantes adaptaes de seus textos, permanentemente invadindo palcos e telas1.

    Enquanto o longa-metragem Onde andar Dulce Veiga? Ao mesmo tempo, os escritos de Caio parecem ainda ter muito a contribuir para o audiovisual brasileiro a imerso na cidade, a afetividade e a sexualidade de seus personagens cada vez mais pedem passagem nas telas.

    Se a produo nacional de longa metragem, quase sempre dependente dos mecanismos de renncia fiscal, tem deixado este escritor em segundo plano, o cinema feito nas universidades, nos curtas-metragens e na televiso d amostras contnuas de como sua literatura povoa os coraes e mentes de quem se expressa com imagem e som3. Assim, suas reflexes sobre sexo, drogas, homossexualismo, loucura e violncia continuam em cartaz4.

    Sintetizando a causa dessa perenidade, Luciano. Ao mesmo tempo, seus contos encontram-se disponveis na internet. Grande parte dessa produo est disponvel em semamorsoaloucura. Os demais contos so facilmente achados com ajuda do Google. Entre os estudos acadmicos, destaca-se a publicao do trabalho de Bruno Souza Leal , Caio Fernando Abreu, a metrpole e a paixo do estrangeiro: contos, identidade e sexualidade em trnsito.

    Os primeiros aparecem em itlico; os ltimos, entre aspas. Mantm-se itlico nos livros apenas nos ttulos dos subcaptulos desta tese, nas citaes de outros autores em que o nome da obra aparecer em itlico, e quando o ttulo for citado em nota de rodap, como citao bibliogrfica como na nota anterior.

    Citaes de discos, msicas, encenaes teatrais e publicaes permanecem em itlico. Ainda na seara dos curtas h A mulher binica , de Armando Praa, baseado no conto Creme de alface, presente em Ovelhas negras , mas escrito em ; e Na terra do corao , produo pernambucana de Caroline Quintas e Renata Monteiro, baseada em uma crnica de Caio Fernando Abreu, publicada em em O Estado de S.

    Paulo e reproduzida na antologia Pequenas epifanias Alabarse afirmou: Caio conseguiu chegar ao nervo do corao urbano brasileiro p. Este trabalho surgiu da vontade de elaborar um roteiro de longa-metragem a partir do livro de contos Morangos mofados. Ao mesmo tempo, nasceu do desejo de que este processo servisse como um olhar diferenciado para a questo da adaptao. Valorizando estas instncias o roteiro e adaptao como centrais no processo cinematogrfico, percorri um caminho combinando minha experincia pregressa com o pensamento de tericos, realizadores e roteiristas5.

    Ento, parti da ideia de que para elaborar o roteiro era necessrio investigar certos aspectos Quando terminei esses estudos, comecei a fazer as primeiras tentativas de escritura. O descontentamento inicial mostrou a necessidade de analisar pelculas que tivessem narrativas similares que eu estava buscando. Como o transposio de contos geralmente leva a um filme multifacetado, abri um novo flanco de reflexo:.

    Depois disso, as dificuldades foram transpostas e cheguei a parte do meu objetivo:. Toda essa empreitada resumida linearmente acima, foi marcada por incertezas, correes de rota e raciocnio rizomtico. Alis, um pouco deste aparente caos vem tona nas anotaes expostas antes e depois do roteiro. Como uma espcie de apresentao, elenco as ideias tidas antes da escritura do script; j como reflexo sobre a criao apresentada, revelo os meandros do processo de. Desta forma, o percurso de adaptao fica registrado, oferecendo todas as pistas desta adaptao meu segundo objetivo.

    Por sua proposta, a pesquisa se insere em uma corrente especfica de abordagem sobre a criao artstica; aquela que, alm de ter por intuito diminuir a distncia entre a exegese acadmica e o fazer prtico, utiliza em seu corpo o dilogo entre a abordagem terica e a concepo de uma obra no caso, o roteiro de Morangos mofados o filme. Dois trabalhos inspiraram a escolha desse caminho. Ana Cristina Cesar , em sua dissertao de mestrado apresentada em , no Programa de Ps-Graduao em Literatura da Universidade de Essex traduziu para o portugus o conto Bliss, de Katherine Mansfield, e fez do seu percurso, de suas dvidas, um mote para reflexes.

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    Ao mesmo tempo, este trabalho inspirado por uma srie de cineastas que, alm de realizar filmes, meditaram sobre seu ofcio9. De Godard a Assayas, de Pasolini a Scorsese, de Eisenstein e Truffaut com estes dois ltimos, inclusive, dialogo sobre o tema da adaptao. Nesta pesquisa, a questo da adaptao liga-se a uma pergunta: como fazer a transposio de contos de um escritor para um longa-metragem?

    Se existem vrias respostas, esta dvida no deixa de conter em si um ponto de vista sobre a. Os trabalhos deles so, invariavelmente, ensaios focados em uma obra; no caso, um conto e um romance. Enquanto a poeta carioca usa a maior parte de seu enxuto texto para justificar suas escolhas na hora da traduo, Gomes relaciona O quieto animal da esquina e outras obras do escritor com livros, filmes, msicas, traando um painel instigante sobre a representao contempornea, atravs de temas como o olhar, o tempo e a influncia cinematogrfica na literatura.

    Em contrapartida, a pesquisa aqui apresentada segue uma anlise que busca a todo momento um corpo a corpo analtico dos filmes e livros que compem este trajeto mais amplo. Ou seja, a metodologia usada nesta pesquisa diferente. Afinal, primeiramente j existe um afastamento de abordagens hierarquizantes, olhares que colocam a literatura e o cinema como expressividades que pertencem a degraus diferentes na escada da arte.

    Por exemplo, Robert Richardson alegou que o filme no um meio adequado para expressar abstraes ou lgicas complicadas. Com viso totalmente contrria, Eisenstein 10 defendeu a ampla diversidade de possibilidades expressivas do cinema, chegando a afirmar que s este meio pode traduzir perfeitamente o aspecto emocional de um personagem, no caso, atravs do choque entre imagem e som.

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    Ao mesmo tempo, a pergunta elaborada e o incio desta introduo trazem intrinsecamente o ponto de vista de que a literatura tem muito a contribuir ao cinema. Esta profisso de f se ancora em uma ideia que comeou a ser espraiada por Andr Bazin, em texto publicado em Para ele: considerar a adaptao de romances como exerccio preguioso com o qual o verdadeiro cinema, o cinema puro no teria nada a ganhar, , portanto, um contra- senso crtico desmentido por todas as adaptaes de valor , p.

    Nesse pensamento sem hierarquia dos meios, aparecem os estudos que buscam entender a expressividade particular da literatura e do cinema, como as reflexes ligadas semiologia. Randall Johnson fez uma sntese destes trabalhos, destacando que este tipo de abordagem evoluiu de tentativas mal-orientadas no sentido de encontrar equivalncias flmicas de elementos lingusticos para tentativas mais fecundas e produtivas de desenvolver uma semitica do cinema ao redor da noo de cdigo , p.

    Atravs desta noo, Johnson traz a ideia de que tanto a literatura quanto o cinema trabalham com cdigos narrativos e, por consequncia, a anlise de uma adaptao deve comear pelo entendimento de quais so as transformaes ocorridas na transposio da narrativa. O ensasta lembra tambm a importncia do analista se debruar sobre os cdigos cinematogrficos, levando em conta a montagem e os movimentos de cmera, principalmente para buscar a compreenso de quais operaes foram feitas para traduzir a narrativa literria em aspectos cinematogrficos.

    Ao mesmo tempo em que sintetizou os esforos da semitica, Johnson tambm apontou novos caminhos para pensar a adaptao, principalmente quando lembrou a necessidade de levar em conta que filme e livro geralmente so produzidos em pocas diferentes, o que afeta a circunstncia da criao e da.

    Abrindo caminho para o dilogo entre movimentos estticos, Johnson discute Macunama , de Joaquim Pedro da Andrade, baseado no livro homnimo de Mario de Andrade Ento, enfatiza os pontos de aproximao entre o Modernismo e o Cinema Novo, explicitando que as duas correntes tinham preocupaes semelhantes, tanto no que diz respeito pesquisa formal, quanto na questo temtica, pautada pela reflexo sobre a representao da identidade brasileira.

    Jos Carlos Avellar tambm aborda a presena da literatura brasileira dos anos no cinema dos anos e , estudando no s o filme de Joaquim Pedro, mas outros, como Lio de amor , de Eduardo Escorel, baseado em Amar, verbo intransitivo , do mesmo Mario de Andrade. Mas Avellar tambm amplia o dilogo entre cineastas e escritores, apresentando um pensamento em que a adaptao apenas uma forma do cinema se relacionar com os livros; afinal, para o ensasta, existe um caminho de mo dupla entre as duas formas de expresso.

    Segundo Avellar:. Talvez seja possvel imaginar um processo cujo ponto de partida difcil de localizar com preciso em que os filmes buscam nos livros temas e modos de narrar que os livros apanharam em filmes; em que os escritores apanham nos filmes o que os cineastas foram buscar nos livros; em que os filmes tiram da literatura o que ela tirou do cinema; em que os livros voltam aos filmes e os filmes aos livros numa conversa jamais interrompida.

    Dentro desse raciocnio, Avellar evidencia a influncia de determinados livros em certos filmes, mostrando como a literatura est presente em pelculas que apresentam roteiros originais. Por exemplo, o ensasta demonstra a presena do romance social brasileiro dos anos na filmografia de Nelson Pereira dos Santos.

    Neste raciocnio, Rio 40 graus , o primeiro filme do diretor, obra deflagradora do Cinema Novo, usa diversos elementos de Capites de areia , de Jorge Amado, a comear pela descrio realista de ambientes menos prsperos. Essas abordagens que partem do pressuposto de que h diferenas entre livro e filme geralmente questionam o conceito de fidelidade. Robert Stam defende a tese de que os filmes oriundos da literatura so antes de tudo uma apenas uma das possveis leituras de uma obra literria.

    Entre suas diversas anlises, o ensasta revela a dvida que As aventuras de Tom Jones Tom Jones, , de Tony Richardson, tem no s com o romance de Henry Fielding, mas com o filme burlesco e o cinema verit p.

    Desenvolvendo um raciocnio similar, Ismail Xavier ataca a noo de fidelidade, argumentando que ela exige critrios subjetivos de observao. Assim, mesmo quando h comparao de estilos, o que se v uma confuso entre os especficos literrio e cinematogrfico. Em contrapartida, Xavier salientou que cada vez mais se pensa em dilogo entre obras Este olhar no s leva em conta a diferena de contextos em que as duas criaes foram produzidas, como admite que o texto um ponto de partida e no de chegada.

    Ao mesmo tempo em que aponta diversas diferenas entre o original e a adaptao, ele reitera que isso no impede que Morte em Veneza seja um filme esplndido p. Ou seja, Eco defende o ponto de vista de que no h problemas da adaptao gerar uma obra distante do livro-base. Assim, quem adapta usa o original, dele extraindo ideias e inspiraes para produzir um texto prprio p. A partir dessa ideia de Umberto Eco possvel avanar na questo, invertendo o olhar, tentando entender no mais somente alguns impasses da relao entre cinema e literatura, mas investigando as formas, os mtodos, os pensamentos mais correntes de certos diretores e roteiristas envolvidos nesta questo.

    Primeiramente, a reflexo sobre adaptao est no bojo de algumas polmicas histricas a respeito do prprio cinema. Em seu j citado texto, Bazin usa a reflexo sobre adaptao para explorar a oposio cinema industrial cinema autoral. Mesmo que tal viso hoje soe generalista, o crtico diferencia os filmes em que a literatura serve de selo de qualidade daqueles elaborados por cineastas que se esforam honestamente pela equivalncia integral, tentam ao menos no mais inspirar-se no livro, no somente adapt-lo, mas traduzi-lo para a tela p.

    Na hora de exemplificar, Bazin contrape duas verses de Madame Bovary, opondo a. Neste sentido, o mais interessante o argumento que Bazin usa para defender a proposta do realizador francs. Em sua observao sobre o filme, ele enfatiza que Renoir muito mais fiel ao esprito do que ao texto da obra. O que nos toca na tela que seja paradoxalmente compatvel com uma independncia soberana p. Ento, Bazin compara Renoir a Flaubert e Guy de Maupassant, colocando-os na mesma estirpe de gnio, de artista de exceo.

    Assim, o crtico contrape a liberdade de criao de um cineasta a uma obra gerada, segundo ele, para fins meramente comerciais. O problema que talvez seja muito difcil definir exatamente este esprito evocado por Bazin. Em contrapartida, a forma livre com que Renoir trata a literatura parece viva em realizaes to diversas como as de Jean Epstein e Joaquim Pedro de Andrade.

    Para o realizador de A queda da casa de Usher La Chute de la Maison Usher, , feito com base em Edgar Allan Poe, a adaptao a impresso que fica aps o esquecimento da obra; para o diretor de Macunama, a adaptao parte de uma reelaborao crtica e chega a uma criao original A liberdade de Renoir tambm vista em Epstein e Joaquim Pedro apenas uma das possibilidades de adaptao defendida por um certo pensamento cinematogrfico.

    Para desnudar outras concepes, interessante continuar no trajeto que flagra debates em torno da questo da adaptao. Neste sentido, a extrapolao de contraposies estticas vai ser retomada por Franois Truffaut , em seu seminal artigo Uma certa tendncia do cinema francs, publicado em Aqui, o ataque no mais a Hollywood, mas ao Cinema de Qualidade Francs.

    Por um lado, Truffaut faz a elegia do cinema de autor e defende o Dirio de um proco de aldeia Le Journal dun cur de campagne, , de Robert Bresson, baseado em Bernanos. Por outro, achincalha uma srie de adaptaes. Com palavras belicosas, o ento jovem crtico afirma que no concebe adaptao vlida seno escrita por um homem de cinema p.

    Fazendo comparaes entre filmes e livros, Truffaut brada contra um cinema que no se revela altura da literatura, procurando demonstrar sua opinio com a comparao de certas cenas. Por outro lado, ao citar seus preferidos Bresson, Renoir, Max Ophuls Se uma das possibilidades da manuteno da autoria a livre adaptao j havia sido citada por Bazin, a prpria filmografia de Truffaut que oferece uma outra maneira do realizador se ligar literatura.

    Como lembrou Marie-Therse Journot 15, o diretor, pelo menos em suas adaptaes de Henry-Pierre Roch, parece se interessar antes de tudo pela forma da escritura, adaptando-a a outro meio Este tipo de proposta se ancora na ideia de que a fidelidade do cineasta obra pode lhe dar liberdade, por vezes propiciando uma experincia cinematogrfica radical Fazendo um salto no tempo e no espao, esse tipo de fixao pela obra- base, que leva ao experimento cinematogrfico, apareceu no cinema brasileiro recente com Lavoura arcaica , de Luiz Fernando Carvalho.

    Ao mesmo tempo, o realizador descreve as inspiraes visuais de um filme em que o roteiro era o prprio livro, revelando que utilizou a cmera como uma caneta, tentando criar um dilogo entre as imagens das palavras com as imagens do filme p.

    E complementa, afirmando que, no livro, as palavras tm uma elaborao e uma relao com o tempo. Ento, toda essa manipulao do tempo me interessava enquanto narrativa no mbito das imagens p. Les modalits narratives, du roman au film. O curso ocorreu no primeiro semestre de , na Sorbonne Nouvelle Paris 3.

    Ambas foram escritas com Jean Gruault. Para o estudo do processo de trabalho, ver Francis Vanoye e Jean Gruault Ver Bazin Op. A busca permanente do estilo do filme na origem literria vai ofertar uma semelhana incrvel de metodologia entre Luiz Fernando Carvalho e o Franois Truffaut de Jules e Jim: ambos, j no processo de montagem, recorreram ao livro para buscar inspirao. Truffaut chegou a acrescentar frases oriundas do texto de Roch antes do fechamento do corte final; j Carvalho achou no romance de Raduan uma sintaxe cinematogrfica mais prxima da revelao da paisagem interior de seu protagonista e alterou certos planos.

    Essa mesma busca, em certos casos, proporciona o que Sergio Wolf chama de interseco de universos. Muitas vezes o realizador capta em uma obra literria no s uma determinada forma textual, mas algo que vai lhe proporcionar experincias cinematogrficas diferentes daquelas do resto de sua carreira penso em Estorvo , de Ruy Guerra, a partir do romance homnimo de Chico Buarque de Hollanda.

    J Wolf explica seu conceito abordando as relaes de proximidade entre o diretor John Huston e o escritor James Joyce. Estudando o filme Os vivos e os mortos The Dead, , baseado no conto homnimo ao titulo original, Wolf lembra que Huston e Joyce foram dois artistas plenamente cientes da arte do relato. Enquanto a maestria de Joyce sempre foi explcita em seus textos com a explorao das sensaes dos personagens, o uso do fluxo de conscincia e as observaes de detalhes aparentemente sem importncia , a habilidade de John Huston muitas vezes ficou eclipsada por ele realizar filmes mais prximos do padro clssico.

    Porm, todo o requinte sempre existente em seus filmes acabou vindo nesta adaptao do escritor irlands. Para Wolf, Huston aproximou-se do cinema moderno, um tipo de cinema que parecia distante dele parntese meu: s a epifania final, com o monlogo misturado montagem de paisagens geladas, basta para mostrar a manipulao potica de sua mise en scne Para Wolf, Os deuses e os mortos um exemplo no s de como um diretor pode aproximar-se do texto de um escritor, mas tambm de como um realizador pode aproximar-se de um texto, buscando nele uma guinada esttica na sua carreira.

    Alm da abordagem livre e da traduo estilstica, h outras formas de adaptao. Sem querer esgotar a quantidade enorme de possibilidades, gostaria de trazer rapidamente tona o jeito de adaptar do j citado Luchino Visconti. Journot , o realizador buscava geralmente narrativas calcadas na problemtica moral e na paixo amorosa, acrescentando sempre que necessrio uma dimenso histrica como em Seduo da carne Senso, , a partir da novela intimista de Camillo Boito Ao mesmo tempo, os filmes de Visconti primam por um aspecto formal bastante diverso do original literrio, com alteraes de quem narra a histria, com distribuio diversa do saber dos personagens e variaes de temporalidade.

    Dando novamente um salto de espao e tempo, mas mudando radicalmente de estilo cinematogrfico, chego a uma adaptao recente que partiu antes de tudo da busca de uma histria contundente, centrada em um personagem jovem: Bicho de sete cabeas , de Las Bodanski. Luiz Bolognesi, que se encarregou de transpor para a tela o livro Canto dos malditos, de Austragsilo Carrano, explica seu processo:.

    Existem vrias maneiras de se adaptar um livro. Resolvi trabalhar da maneira mais livre possvel, considerando o livro uma pea de inspirao do trabalho, mas com liberdade irrestrita para inventar situaes e at modificar personagens. Como o livro O filme seria ento uma pea inspirada no livro p. Pensando na pluralidade de todas essas aproximaes citadas, pode-se voltar aos passos descritos em itens no incio dessa introduo. Aquela rota cheia de percalos pode ser vista agora como uma metodologia de adaptao.

    Tal metodologia inclui: estudo da obra do escritor, a anlise de filmes adaptados de seus escritos, e a reflexo sobre a narrativa a ser usada na adaptao. Ao final deste priplo, o roteirista est pronto para decidir: esquecer ou lembrar de tudo, ser livre ou prender-se literatura, inspirar-se ou no no estilo das frases, no tema ou na histria.

    Antes de detalhar cada parte, importante reiterar que o acmulo de informaes e anlises fundamental para abastecer o roteirista. Desta forma, a abordagem de diversas facetas da relao entre Caio Fernando Abreu e o cinema. Ao mesmo tempo em que a criao soberana na hora de colher os frutos do mergulho na obra do escritor, no h a inteno de apagar os caminhos que acabaram no servindo diretamente como combustvel inspirador para a escritura do roteiro.

    O primeiro e o segundo captulos da pesquisa abordam os escritos de Caio Fernando Abreu, buscando investigar a presena do cinema em sua obra. Antes de mais nada, interessante lembrar que Caio chegou a trabalhar em alguns filmes, colaborando no roteiro de Romance Srgio Bianchi, e Aqueles dois Srgio Amon, , e escrevendo o argumento, com Guilherme de Almeida Prado, de Onde andar Dulce Veiga?

    Alis, a ligao com Guilherme est estampada em Perfume de gardnia Guilherme de Almeida Prado, , em que o escritor participa como figurante. Foram estas primeiras referncias que me estimularam o mergulho em seus livros, em busca de aluses mais e menos explcitas ao universo audiovisual.

    No primeiro captulo, a partir de contos, novelas e romances, abordo as relaes entre o texto de Caio Fernando Abreu e o cinema sob pelo menos trs prismas, partindo sempre da perscrutao textual, inspirada pelos formalistas russos e pelos estruturalistas franceses. Nesta via tripla, primeiramente existe a busca da meno a filmes diversos, bem como possveis comparaes de seus escritos com determinadas pelculas.

    Mais do que elaborar uma taxionomia dos tipos de aluso e relao, me interessou tentar construir um conjunto de referncias que forma um panteo de obras prediletas e que, de alguma forma, mostra a concepo do escritor sobre cinema.

    Ento, aqui e ali, consegui tatear maneiras com que Caio Fernando Abreu responde velha questo: quest-ce que le cinma? Outra faceta dessa reflexo sobre os escritos de Caio Fernando Abreu o levantamento de instantes em que seu texto incorpora procedimentos cinematogrficos, como as tcnicas de montagem. Em um de seus estudos sobre a relao entre palavra e imagem, Eisenstein a, p. Abordando um trecho de Bel Ami, de Guy de Maupassant, o terico faz menes s possveis posies de cmera originadas da forma com que o contista descreve as doze batidas do relgio.

    Inspirado neste tipo de abordagem, apresento alguns momentos da literatura de Caio Fernando Abreu que usam nitidamente expedientes cinematogrficos. O terceiro alicerce formado pelas aluses ao ato de ver filmes, ir s salas de cinema e assistir pelculas na TV e no vdeo.

    Neste sentido, interessante perceber que em Caio Fernando Abreu o cinema muitas vezes representa para si e para os personagens um refgio, um lugar de contraposio s normas sociais, uma marca cultural dos personagens etc.

    Ao invs de dividir estes temas e cartograf-los, a opo foi olhar a produo de Caio Fernando Abreu de forma cronolgica, investigando como estas e outras caractersticas foram se alterando no decorrer do tempo, no decorrer da sua trajetria artstica. A abordagem centra seu percurso nos escritos posteriores a ano marcado pelo texto Lixo e purpurina, que s viria tona na antologia Ovelhas negras, de Mesmo que chegue at um de seus contos derradeiros, Bem longe de Marienbad, de , o percurso de anlise meticulosa tem como forte ponto de chegada Onde andar Dulce Veiga?

    Estes dezessete anos cobertos pela anlise corroboram a afirmao de talo Moriconi:. Caio Fernando Abreu faz a ponte entre as instigaes pop-culturais e malditas ou marginais dos anos 70 e a pasteurizao juvenil e mstica dos anos 90, passando pela disseminao banalizao? No segundo captulo, as crnicas de jornal e a correspondncia do escritor do pistas de sua relao com o cinema.

    Deixando um pouco de lado a cronologia, busco associaes entre o universo do escritor e as preocupaes de determinados diretores.

    Cinfilo inveterado, Caio desfila tanto para pessoas prximas como para leitores de todo o Brasil seu modo peculiar de se relacionar com o cinema, ora. Perfil dos escritores: Caio Fernando Abreu. Porto Alegre: RBS publicaes, A abordagem problematizando o sentido que o cinema tem na obra de Caio Fernando Abreu prepara o terreno para o terceiro captulo.

    Aqui mudo a cmera de posio e tento entender como certos realizadores se ancoraram em seus escritos. Este universo foi delimitado em cinco ttulos que, a meu ver, representam os exemplos mais relevantes de adaptao do escritor: os longas Aqueles dois , de Srgio Amon, e Onde andar Dulce Veiga?

    As anlises centram-se na forma com que os cineastas tentaram no s traduzir certos aspectos da literatura de Caio, mas tambm a usaram como mola propulsora para a criao de filmes que tm seus prazeres e construes peculiares. Alis, cada obra pediu um tipo de abordagem que privilegiou esta ou aquela faceta. Em Aqueles dois, me detenho sobre o conjunto de ferramentas usado para construir um longa-metragem a partir de um conto, enfatizando a construo dos personagens principais; no filme de Guilherme de Almeida Prado, abordo principalmente a construo formal, analisando com detalhes algumas sequncias, com destaque para aquelas em que o espao e o tempo tendem abstrao; em Dama da noite, procuro entender como a unio de dois contos de fases distintas do escritor forma uma narrativa bipartida, unindo um discurso ambguo em relao cultura da noite com uma reflexo sobre a solido; em Sargento Garcia, relaciono as escolhas visuais com a nfase homossexual da narrativa, destacando elementos como a presena do cigarro, da chuva e do bolero; j em Pela passagem de uma grande dor, destaco o incio e o desfecho deste curta que antes de tudo um exerccio de mise en scne Dentro deste largo escopo, a metodologia conciliou anlise flmica e anlise narrativa essa, uma constante em diversos estudos de roteiro.

    Este movimento parte do exame daquilo que denominei narrativa plural. Tal conceito serve para abrigar alguns tipos de narrativa que guardam a semelhana de apresentarem uma diversidade de desenvolvimentos dramticos, mas cuja intercalao extremamente varivel. Neste tipo de trama, a jornada de cada personagem tem um tempo de tela inferior ao modelo centrado em um ou dois protagonistas.

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    Os filmes de esquetes, de episdios, de tramas intercaladas e o multiplot so, a meu ver, formas anlogas que, geralmente, aparecem separadas nos estudos sobre roteiro O interessante que este universo diverso e comum a um s tempo comeou a aparecer quando iniciei um estudo sobre adaptao de contos para longa-metragem: O prazer Le plaisir, , de Max Ophuls, baseado em Maupassant, um filme de esquetes; Ainda orangotangos , de Gustavo Spolidoro, a partir de Paulo Scott, transcende o filme estanque, com personagens se cruzando durante a projeo; Guerra conjugal , de Joaquim Pedro de Andrade, divide os contos de Dalton Trevisan em uma narrativa intercalada com trs protagonistas; Short Cuts Cenas da vida Short Cuts, , mistura os originais de Raymond Carver em um filme-coral.

    Alm desses filmes, um estudo preliminar apontou outros exemplos, como Kaos , de Paolo e Vittorio Taviani, uma sucesso de cinco narrativas sicilianas a partir de Luigi Pirandello; Histrias extraordinrias Histoires extraodinaires, , com trs episdios inspirados em Edgar Allan Poe, dirigidos por Federico Fellini, Louis Malle e Roger Vadim; Boccaccio 70 , reunio de uma constelao de atrizes e de diretores italianos, relendo a obra do escritor que d titulo ao filme J o multiplot abriga tanto os filmes girando em torno de um grande grupo uma famlia, por exemplo , como aqueles com vrios personagens que tm vnculos mais tnues, por vezes ligados apenas pela narrao.

    Em tempo: nesta pesquisa, network narrative e filme-coral so usados como sinnimos de multiplot. Bial, baseados em Guimares Rosa, completam um panorama preliminar, composto de narrativas longas inspiradas na reunio de pequenos relatos.

    Aqui novamente houve uma mudana de rota. Ao preparar um captulo sobre adaptao de contos para o formato de longa-metragem, comecei a perceber que estava delimitando o estudo narrativo pela origem do projeto e no pelos resultados alcanados por estes filmes, e no pelas possibilidades que eles tinham de me ajudar na escritura do roteiro.

    Ento, decidi abdicar do critrio de refletir exclusivamente sobre adaptaes de contos e ampliei o escopo. Rapidamente outras pelculas vieram tona: algumas eram baseadas em diferentes formas da expresso escrita um romance, uma pea de teatro -, mas tambm havia aquelas com roteiros originais. Neste momento, resolvi incluir no universo de anlise filmes cujas narrativas so influenciadas diretamente por conceitos oriundos da msica - no caso, variaes sobre o mesmo protagonista.

    Os filmes desse captulo foram delimitados tendo como critrio privilegiar aqueles que parecessem mais inspiradores na construo de um roteiro baseado nos contos de Caio Fernando Abreu. Sem dvida, uma escolha subjetiva, mas que em vrios momentos destaca filmes que abordam a urbanidade, permeada de solido, errncia e desencontros amorosos e familiares. Nesse quarto captulo que aborda quinze filmes , a inspirao analtica veio do ensaio Mutual Friends and Chronologies of Chance, de David Bordwell , p.

    Em seu artigo sobre filmes de histrias entrelaadas que ele chama de network narratives , Bordwell faz um panorama das questes que envolvem este tipo de proposta, analisando quanto tempo os personagens aparecem na tela, em que momento surgem os conflitos etc.

    Tendo este ensaio como base, me debrucei sobre a narrativa de cada pelcula, procurando entender como cada estrutura no s cria a associao dos personagens e das pequenas histrias, mas possui um ritmo que s uma anlise pormenorizada detecta. Ao mesmo tempo, quando os filmes apresentados so oriundos de contos, procurei enfatizar determinados processos realizados pelos roteiristas e diretores: Joaquim Pedro uniu contos de vrios livros de Dalton Trevisan e dividiu-os entre trs personagens; Robert Altman e seu co-roteirista Frank Barhydt criaram duas personagens que trabalham com msica - e as melodias sonoras proferidas pela cantora de jazz e pela violoncelista ajudam na fluncia das partes de Short Cuts.

    O captulo, ento, prima pela mistura: adaptaes e roteiros originais, multiplot e outros formatos, fico e documentrio inclui 32 curtas sobre Glenn Gould Thirty Two Short Films about Glenn Gould, , de Franois Girard. As dvidas sobre assumir essa proposta no foram pequenas, mas duas consolaes vieram de fontes completamente diferentes. Primeiramente, em uma das tantas tergiversaes por filmes que no so analisados nesta pesquisa, revi Lola , de Jacques Demy. Ento, me deparei com uma frase do diretor, revelando que sua inspirao tinha sido o citado O prazer, de Max Ophuls Mesmo que se pense que a influncia basicamente visual, foi impossvel no ligar o filme de esquetes com o filme-coral afinal, em Lola as histrias se entrelaam, em uma narrativa em que a espera de Roland Marc Michel por Lola Anouk Aime apenas um dos eixos narrativos.

    Ou seja, quando se trata da busca de inspirao as categorias fechadas talvez no sejam to necessrias. Aliado a isso, encontrei o texto Parallel Lines, de Murray Smith.

    Referenciado por Bordwell, este pequeno estudo, de pouco mais de seis pginas, opera em dois sentidos. A partir da ideia aberta de interseco narrativa, o ensasta tambm mistura uma srie de registros, como fico e documentrio aqui tambm aparece 32 curtas sobre Glenn Gould , multiplot Short Cuts , filme de episdios26 e narrativa intercalada, citando inclusive um dos filmes que eu j escolhera para a anlise: Veneno Poison, , de Todd Haynes.

    Ou seja, eu no era o nico a enxergar a proximidade de narrativas aparentemente diversas. Ao mesmo tempo, Smith faz uma linha evolutiva desse tipo de filme, no s citando outro dos meus filmes escolhidos, Conflitos de amor La Ronde, , de Max Ophuls, como lembrando que este tipo de estratgia pode ser encontrada em Life of an American Fireman, um filme de Edwin Porter, l de Este tipo de olhar, que reverencia tambm La Glace trois faces , de Jean Epstein, passa por Cidado Kane Citzen Kane, , de Orson Welles, e Rashomon Akira Kurosawa, , assegura que minha delimitao puramente subjetiva e no busca valor historiogrfico.

    A data de refere-se ao lanamento do DVD do filme. A declarao foi retirada do encarte. Na ordenao do captulo, procurei fazer uma deambulao pelos filmes, partindo de um tipo de narrativa para outro. Inicio por dois filmes de esquetes: O prazer, e seus contos estanques, e Conflitos de amor, com esquetes ligados por um narrador personificado; a seguir, passo a duas realizaes que transcendem este tipo de registro, misturando personagens de cenas dspares: Ainda orangotangos , de Gustavo Spolidoro, e Barril de plvora Bure baruta, , de Goran Paskaljevic.

    Ento, chego a trs duplas de filme-coral, comeando com Short Cuts e Magnlia Magnolia, , de Paul Thomas Anderson este, inclusive, abordado rapidamente, porque Bordwell o esmia em sua anlise. Passo, ento, ao exemplo oposto destes filmes. Se Altman e Anderson ligam suas histrias com eventos terremoto, chuva de sapos , Haneke prefere radicalizar o desencontro de seus personagens com telas pretas intercalando as cenas.

    Para completar o circuito multiplot, apresento dois filmes franceses de protagonistas mltiplos: as trs mulheres de Paris no vero Haut bas fragile, , de Jacques Rivette, e os dez jovens de Lge des possibles , de Pascale Ferran, so personagens imersos em romances e representam possibilidades deste tipo de narrativa proporcionar um mergulho nas questes amorosas e existenciais de uma constelao mltipla.

    Ao mesmo tempo, estes filmes franceses revelam um olhar terno em relao aos seus personagens, quase sempre ausente nas outras quatro realizaes citadas.

    Tais filmes, mais do que apresentar um olhar multifacetado sobre Glenn Gould e Bob Dylan, tm influncia direta da msica em suas construes narrativas. Sem aprofundar esta questo, o que busquei nestas duas realizaes foi entender e me alimentar de uma liberdade utilizada na transio entre as cenas.

    Estes dois filmes, de alguma forma, representam um tipo de narrativa fragmentada inspirador que abdica da lgica naturalista de encadeamento. Depois dessa trajetria, o momento de pensar no livro Morangos mofados. Como lembra Helosa Buarque de Hollanda, a antologia trata do significado da morte de John Lennon, do fim de algumas utopias, atravs de longos corredores, contatos difceis, gestos repetidos, silncios recorrentes e, principalmente, num profundo e instantneo entendimento entre desconhecidos p.

    Morangos mofados dividido em trs partes, sendo que a primeira O MOFO composta de nove contos e tem um tom pessimista. Segundo Clotilde Pereira de Souza Favalli, este incio centra-se ainda nas iluses perdidas com o golpe militar, nas personagens sem sada em sua expresso radical Este segmento traz histrias onde os personagens conseguem enfrentar suas dificuldades de uma maneira melhor.

    Segundo Favalli, nesta parte predomina uma espcie de claro desafio, de afirmao de identidade. Segundo Buarque de Hollanda, o conto traz um certo adeus s fantasias apocalpticas e, sobretudo, a clareza de um novo projeto sonho que inclua um acerto de contas com o real p. Alis, o conto e o livro acaba com a palavra sim. O quinto e ltimo captulo, ento, prope um dilogo de trs tempos com o livro-base, tendo como centro sua adaptao.

    Inicialmente, aparecem as notas feitas durante a primeira parte do processo de transposio, ocorrida antes dos captulos precedentes serem escritos. Ao mesmo tempo, surgem as primeiras solues para as perguntas deste tipo de adaptao: qual o tipo de narrativa adotado? Como os contos se entrelaaro? Quais contos entraro no filme? Em que poca se passa a histria? Neste caminho, interessante perceber como as possibilidades de resposta vo se alterando a partir do adensamento da relao com o escritor.

    Posteriormente, encerrando a segunda parte, revejo o processo criativo, buscando elucidar no s os principais dilemas de escritura, mas escolhas adotadas, sendo elas conscientes ou no. Servindo apenas como um aperitivo dessa reflexo, evoco a aparente colcha de retalhos Renoir, Truffaut, Carvalho, Huston, Visconti, Bodanski apresentada para exemplificar possveis processos de adaptao.

    Se Truffaut, Carvalho e Huston embrenharam-se na linguagem obtusa de seus escritores, h algo do estilo, da construo frasal de Caio Fernando Abreu, que aparece no roteiro como se ver, o fluxo de conscincia, caro ao escritor, pode ser observado nas transies cnicas.

    Ao mesmo tempo, no h tentativa de respeito por determinadas frases, determinadas virgulas, determinados pontos como em Visconti. Aliado a isso, a lembrana de Bicho de sete cabeas foi extremamente necessria, porque trata-se no s de um filme de temtica jovem, mas porque Bolognesi precisou ficcionalizar o que no to raro assim, mas aparece bem na unio dos contos de Morangos mofados o filme. Para completar, a adaptao de Renoir inspiradora principalmente por legar a liberdade, que, da minha maneira, usei para tentar atingir este lugar esotrico, o esprito do escritor.

    Antes de encerrar este convite leitura, gostaria de lembrar que esta pesquisa um acerto de contas de dezenove anos. Depois destas quase duas dcadas, devolvo a Caio Fernando Abreu e ao cinema um pouco do que pensei neste tempo todo. Em tempo: este roteiro destina-se momentaneamente apenas reflexo acadmica.

    Como boa parte dos escritores que iniciaram suas atividades no sculo XX, Caio Fernando Abreu teve uma relao intensa com cinema. Se posteriormente abordarei as adaptaes de seus textos para o meio audiovisual, interessa aqui examinar como o cinema est presente em sua literatura. Este objetivo amplo pode ser desmembrado em alguns questionamentos que norteiam a busca: o que representa, na obra de Caio, o ato de ir ao cinema? Em seus escritos, qual a relao entre o cinema e a vida?

    Existe uma viso de cinema na obra do escritor? Algumas histrias de Caio parecem prontas para serem levadas tela? De que maneira sua escrita incorpora processos estilsticos prprios do cinema? Fazendo um plano geral sobre a obra de Caio Fernando Abreu, percebe-se que o cinema foi aparecendo de maneira crescente em seus escritos. Na sua produo anterior a Pedras de Calcut , encontram-se menes esparsas a filmes e algumas tentativas de dialogar com a forma de escritura tpica de um roteiro cinematogrfico.

    Se na coletnea de contos Inventrio do irremedivel , e no romance de estreia Limite branco , h pouqussima relao com o cinema, em O ovo apunhalado j se detecta uma ligao maior. No livro, o conto Manequim e rob faz um retrato apocalptico da sociedade, com seres nascendo em ferro velho. Dentre estes mutantes, Robhia atinge a fama, vira manequim e atriz.

    Ela, ento, chega a filmar com os cineastas mais em voga no momento, ganhando prmios e mais prmios em festivais internacionais e sendo eleita rainha das atrizes durante cinco carnavais seguidos p. A partir dessa passagem e da sinopse da histria, pode-se ver uma dupla influncia do cinema no conto. Por um lado, o plot segue uma linha de fico cientfica, onde a sociedade regida por um Poder e a humanidade disputa espao com andrides como em Metrpolis Metropolis, Fritz Lang, e no posterior Blade Runner Ridley Scott, Ao mesmo tempo, j se pode perceber a obsesso do autor pelas atrizes e sua constante problematizao da ideia de sucesso.

    Alis, o suicdio final de Robhia no deixa de ser uma verso pessimista. Dick, Do androids dream of eletric sheep? No existem indcios concretos se Caio leu o livro. Em Noes de Irene, um sujeito conservador, mais de trinta anos, conversa com outro, mais jovem, cabeludo; o encontro entre o antigo namorado de Irene e o mais novo, o choque do ponto de vista estabelecido com uma nova postura de se relacionar com a vida.

    Na conversa, o mais velho conta da primeira vez que foi ao cinema com Irene. Ele pergunta se o outro lembra da cena de um filme em que a personagem est deitada e passa algum cantando na rua p. Quando o mais jovem revela que sim, o mais velho conta que se recorda apenas da msica e cantarola: Io Che non vivo Aqui, pela primeira vez na obra de Caio Fernando Abreu, h a aluso a um dos filmes que marcam sua relao com o cinema: Vagas estrelas da Ursa Vaghe stelle dell'Orsa, , de Visconti a msica mencionada, de Pino Donaggio, aparece na histria de Sandra Claudia Cardinale , que, ao lado do marido, volta cidade da infncia e revive o contato incestuoso com o irmo.

    No caso deste conto, a aluso ao filme cifrada preciso ligar a msica obra. Ao mesmo tempo, como o personagem mais velho acha que a unio de Irene com o jovem ser destrutiva, ao lembrar do filme de Visconti, ele pode estar comparando a relao dos dois com a de Sandra e seu irmo.

    Ainda em termos cinematogrficos, a conversa dos dois no deixa de remeter a um certo tipo de curta-metragem dois personagens vivendo um conflito em um ambiente.

    O conto Retratos tambm enfatiza as mudanas de comportamento dos anos , mostrando o progressivo interesse de um homem conservador por um jovem hippie. Da repulsa inicial, o homem passa a admirar aquele exemplar da contracultura, que, a cada dia, faz uma nova pintura do defensor da tradio, da famlia e da propriedade. A alterao de opinio de um personagem, o choque de posturas diante da vida e um grande nmero de cenas visuais do a este conto um ar cinematogrfico - o que no deixa de ser uma exceo em O ovo apunhalado.

    Alm disso, durante o conto, o homem assiste a um filme em que o protagonista anda de motocicleta e isso o faz lembrar do jovem hippie. Ou seja, o cinema no s aparece na vida de um dos personagens, mas visto como algo prximo da juventude.

    Alis, este conto apresenta uma ampla gama de relaes com questes audiovisuais. Lixo e purpurina retrata a experincia de Caio no exlio, em Londres. O hibridismo estilstico presente na narrativa foi sintetizado pelo ensasta Jaime Ginzburg: Misturando gneros, entre o dirio, a coleo de aforismos, a crnica e o conto, o texto combina referncias histricas e estruturas ficcionais de modo a construir um conjunto de imagens perturbadoras da dcada de , p.

    Lixo e purpurina geralmente marcado por um tom de desesperana, combinando as dificuldades de ser e estar em uma terra estrangeira com a falta de perspectiva que o Brasil oferece para uma inevitvel volta. Entre problemas financeiros e afetivos, cansao, furto e doena, h espao para o cinema.

    Em primeiro lugar, no conto, aparece um recurso estilstico que ir marcar a produo de Caio Fernando Abreu: a comparao de uma faceta da vida com um aspecto relacionado ao cinema. Para descrever o seu bairro, no inverno londrino, o escritor evoca o imaginrio relacionado a um gnero especfico: Na esquina, a igreja com o cemitrio do lado, cheio de lpides corrodas, o perfeito cenrio de um filme de terror p.

    Nesse caso, especificamente, o gnero cinematogrfico citado se relaciona no s com a vizinhana, mas com todos os problemas vividos pelo narrador- protagonista em sua temporada londrina muito mais difcil do que ele imaginara.

    Ento, o trecho acima transcrito faz o leitor pensar que a rotina, na sua estadia na Europa, assustadora. Alis, esse choque entre a utopia hippie e a dureza da realidade tambm vai ser explicitada em sua pea Pode ser que seja s o leiteiro l fora, de O texto mostra personagens de uma comunidade hippie, acossados pela falta de dinheiro, preocupados com a chegada da polcia e com o fim do mundo.

    Assim, o que se v que a experincia de encontrar um futuro utpico muitas vezes se deparou com o seu oposto, representado pelo gnero do horror. Voltando Lixo e purpurina, o conto apresenta tambm outro tipo de comparao, aquela que liga um personagem a um cone do cinema.

    Ao reencontrar Angie, um antigo amigo, o narrador descreve um homem degradado, algum que sucumbiu s dificuldades da vida no exlio: No consegui mais ver nele aquele menino recm chegado de Firenze, que apareceu na nossa antiga casa de Olympia com os olhos grandes e limpos, parecidos com os de Rita Hayworth p. Com a comparao, o narrador salienta a beleza que Angie ostentava no passado e, ao mesmo tempo, contrasta esta caracterstica com o estado atual do rapaz, de aparncia suja e cansada p.

    Ao mesmo tempo, a citao de Hayworth evidencia a influncia das estrelas de cinema na vida do narrador. Alis, este mote reaparece quando o protagonista fala de um hbito que tinha na infncia recordao que surge quando seus amigos vo assistir Diana Dors, atuando na pea Seis personagens em busca de um autor, de Pirandello.

    Quando criana, eu colecionava fotos dela, de Jayne Mansfield e Mamie van Doren, todas as imitadoras de Marilyn Monroe. Agora, ela uma senhora de idade, virou artista sria, a dois passos daqui. A vida mesmo doida p. Como se ver, essa associao entre personagens e pessoas com cones do cinema ser uma constante na obra de Caio, levada ao paroxismo em Onde andar Dulce Veiga?.

    Voltando ao texto de , relevante destacar que, no meio do caos do cotidiano, o narrador-protagonista tambm relata suas experincias como espectador. Em primeiro lugar, aparece o seu desejo de ver filmes. Acho que vou ao cinema. Acho que o dinheiro d at para comer um sanduche no intervalo.

    Em tempo: as peas do Teatro Completo , de Caio Fernando Abreu, sero evocadas sempre que necessrio. O conjunto da obra, porm, no inspirou uma reflexo cinematogrfica sobre seu todo.

    O primeiro aspecto desse trecho que ele pertence a um dos poucos pargrafos do texto que no primam pela melancolia. Antes de falar dos filmes, o narrador revela que reconstituiu um dente, comprou mas e tem algum dinheiro. Ao mesmo tempo, os pargrafos anterior e posterior a este, carregam as tintas para demonstrar aquele j citado clima de filme de terror. Neste sentido, o cinema aparece como local de refgio o que, no caso, nada tem a ver com escapismo. Mas inevitvel fazer uma pequena abordagem da sesso qudrupla.

    Talvez com a exceo de Drive, He Said , filme de estria de Jack Nicholson como diretor, os outros trs ttulos podem ser vistos como emblemticos de um tipo de cinema feito na virada dos anos para os Performance Donald Cammel e Nicholas Roeg, uma produo britnica, encabeada por Mick Jagger, que mistura os mundos do crime e do rock, numa atmosfera delirante, sublinhada pela montagem descontnua.

    J tanto Easy Rider Sem Destino, Dennis Hooper, quanto Five Easy Peaces Cada um vive como quer, Bob Rafelson, podem ser considerados exemplares tpicos da nouvelle vague americana, tanto pela forma flmica que oscila entre o padro clssico e a inventividade oriunda dos cinemas novos, quanto pelas histrias que mostram personagens deriva, num questionamento maior no primeiro caso; menor, no segundo das instituies. Neste sentido, vlido ressaltar como os estudiosos franceses Michel Marie e Laurent Jullier caracterizam os protagonistas deste tipo de cinema americano do perodo:.

    Os heris esto cansados, e se o tempo das revolues os fez adquirir uma certa margem de manobra social, afetiva e sexual, eles nem sempre sabem o que fazer com esta liberdade. Frequentemente a trgua tem curta durao, e a sociedade termina por extermin-los. O outro filme visto pelo narrador do dirio dessa mesma safra americana: Perdidos na noite Midnight Cowboy, O conto deixa claro que existe uma relao de proximidade entre as experincias do narrador, sobrevivendo de bicos e pequenos furtos em um pas estranho, com o protagonista do filme de John Schlesinger, que, ao deixar o Texas por Nova York, v naufragar o seu sonho de ter uma vida fcil na terra das oportunidades: Fui rever Midnigth Cowboy depois da escola.

    J havia visto no Brasil, mas naquela poca era pura fico. Agora no, parecia minha prpria vida, s um pouco piorada p. Esses filmes da transio dos anos para os anos geralmente colocam em pauta os questionamentos de personagens jovens, vistos por um olhar que os acolhe e um dos sinais dessa adeso dos filmes a seus protagonistas a utilizao da trilha sonora recheada de rock. Neste sentido, pode-se pensar que tais filmes representam um estilo de cinema que marcar a obra posterior de Caio Fernando Abreu, principalmente a partir do seu terceiro livro de contos, Pedras de Calcut Assim, como se este conjunto alimentasse uma transio de postura criativa, que pode ser percebida tanto na forma quanto no contedo.

    Por um lado, Caio at este instante prima por retratos subjetivos muitas vezes centrado em apenas um personagem , em que a exposio dos dilemas dos mesmos surge atravs da tcnica do fluxo de conscincia. Porm, a partir de Pedras de Calcut, Caio migra para uma narrativa que no abdica dessas opes estilsticas, mas que mistura-as com outras, como, por exemplo, com o texto que incorpora elementos da cultura de massa. De Clarice Lispector drogada, Caio passar a trafegar por um grupo de escritores que traz a indstria cultural para dentro de suas histrias e de seus personagens, cujos exemplares vo desde Jos Agripino de Paula, do antolgico libelo tropicalista PanAmrica , at os jovens teatrlogos que se firmam no cenrio nacional no fim dos anos e incio dos anos , como Jos Vicente30 e Antnio Bivar De certa forma, Morangos mofados fala de uma histria que se configurava oficialmente, no Rio, naquele teatro, naquele vero A pea rito de passagem da gerao do desbunde falava da grande mudana para a Fronteira, de um incmodo desejo de sair, de se desligar de um mundo condenado No texto e na encenao, a presena da f fundamental que iluminou o projeto libertrio da contracultura.

    A f que orientou o sonho cujo primeiro impulso veio dos rebeldes sem causa de Elvis e Dean, que se define em seguida como a grande recusa da sociedade tecnocrtica pelo flower power ao som dos Beatles e dos Rollings Stones; e que ganha, de forma inesperada, uma nova e mgica fora no momento em que John Lennon declara drasticamente: o sonho acabou Fernanda Montenegro lembra que Antnio Bivar tem a qualidade de ser o detonador de um tipo de teatro contestador dos anos Bivar publicou, entre outros livros, O que punk?

    Este livro, inclusive, um dirio de viagem, uma busca pelas razes da contracultura na Europa, nos anos ou seja, dialoga com o conto Lixo e purpurina, apesar de ser bem menos amargo. S que ao contrrio destes mencionados autores, Caio ser talvez aquele que melhor vai entender ou buscar entender o naufrgio do sonho hippie, que desgua na encruzilhada entre a falta de esperana total com os novos tempos o j citado Sem futuro dos punks ou a busca pela compreenso das angstias e os impasses de uma gerao que comea a conviver com a liberdade dos costumes e com a iminente democratizao do pas, mas tambm com um passado recente profundamente trgico e um cenrio que, ao lado da efervescncia, oferece as dificuldades sociais de um milagre econmico que desvela a sua real face de misria, desemprego e inflao.

    Neste sentido, a temtica de Caio tambm sofrer uma certa alterao: mesmo que os personagens emparedados em seus universos ainda permaneam, de suma importncia a pintura dos mundos externos a eles a urbanidade, a grande cidade, as dificuldades de relacionamento num mundo marcado por exigncias financeiras so temas que passam a aparecer cada vez mais. Para essa nova postura, talvez a primeira atitude importante tenha sido justamente a ruptura com o sonho hippie ABREU, b, p. A expresso do prprio Caio na apresentao de Loucura, chiclete e som o conto de , que representa sua mudana de atitude em relao contracultura, s veio tona em Ovelhas negras Na mesma apresentao, o escritor afirma que gosta da estrutura do conto, prxima de um roteiro cinematogrfico.

    Loucura, chiclete e som narra um dia na vida de um jovem urbano, que vive uma existncia incerta, mergulhado na paranoia alimentada pela possibilidade de coao policial, e na incomunicabilidade familiar radical, onde as geraes diferentes pai e filho nem sequer conversam.

    Neste panorama, as drogas e o sexo efmero parecem j no corresponder ao prazer libertrio e talvez por isso o conto acabe assim: Ento vomita vomita vomita vomita vomita vomita vomita. Sete vezes feito um ritual. Amanh tem mais p. Se esse encerramento j evidencia que a aproximao de Loucura, chiclete e som com o formato de roteiro um pouco estranha, examinando o conto por inteiro podem-se perceber outras estratgias. Por um lado, acima de cada cena h a presena de cabealhos, indicando se os acontecimentos ocorrem de dia ou de noite, e dentro ou fora de um ambiente.

    Ainda, as aes so divididas em sequncias, como num roteiro. Verbos no passado, descries de sentimentos e uma quantidade enorme de vrgulas embalando fluxos quebrados so alguns dos recursos que embelezam o texto, mas acabam afastando-o da forma de roteiro.

    Assim, percebe-se um paradoxo: apesar de ter cabealho e diviso de aes tendo por base fatias de espao-tempo, Loucura, chiclete e som est distante de oferecer um tratamento cinematogrfico e apresentar uma reflexo sobre a relao do escritor com a stima arte. A partir daqui pode-se pensar que o texto exaustivamente esculpido de Caio Fernando Abreu, que incorpora em sua prosdia os sentimentos dos personagens, que tem na modulao de seu sopro fragmentrio uma forma de fazer uma Polaroid de um estado de esprito, talvez se relacione com o cinema no exatamente por sua proximidade com o estilo de escritura de roteiro pelo menos no que tange descrio das aes.

    Neste sentido, a literatura de Caio est distante das experincias de texto cinematogrfico cara a certos exemplares do romance policial americano Hammet, Chandler A primeira grande virada da relao da literatura de Caio Fernando Abreu com o cinema aparece em Pedras de Calcut32, seu primeiro livro proeminentemente urbano. O conto, escrito em uma mistura de portugus, espanhol e ingls, narra basicamente a histria de uma garota, Sally, que decide fugir de casa, abandonar a famlia e ser feliz em outro lugar.

    Durante este percurso, narrado em tom debochado, ela se aproxima de tipos bizarros, como Selma Jaguarassu, Mike Pocket-Knife o lder de uma gangue chamada Kids, mencionada no ttulo , ambos pertencentes S. Portanto, a numerao das pginas no se refere edio original. Toda essa histria narrada com fragmentos, que propem a mistura de estilos narrativos; a incorporao dos meios de comunicao de massa h textos extrados da Revista Capricho e do Correio do Povo, a forma de um cartaz de cinema toma conta de uma pgina ; a interao irnica com o leitor ele deve decidir se a histria verdadeira ou no, ele deve decidir a moral da histria ; e certa autocrtica.

    Antes de mais nada, este tipo de proposta evoca no s o modernismo Oswald de Andrade sempre buscou incorporar pequenas coisas na literatura , mas tambm a obra de outros escritores brasileiros contemporneos de Caio, como o conto Lcia McCartney Rubem Fonseca, , Zero Igncio de Loyola Brando, e Romance de gerao Sergio Santanna, Dentro do hibridismo de Sally Can Dance33, destacam-se, primeiramente, as relaes diretas com o cinema.

    H pelos menos trs citaes envolvendo diretores e atrizes. Na pgina que parodia um cartaz de filme, inclusive destacando que Selma uma special guest star, h uma lista de agradecimentos, e um dos agraciados Martin Scorsese. Seria mais uma homenagem ao novo cinema americano dos anos ? Sim, mas fica a dvida se existe uma relao com um filme especfico.

    Como no cartaz ainda h um agradecimento para a frota de taxistas Mahatma Gandhi, pode-se pensar que Caio homenageia Taxi Driver Scorsese, Porm, ao mesmo tempo, o conto pode se referir histria de uma mulher viva que abandona a cidade para fugir de um homem violento, do menos conhecido Alice no mora mais aqui Alice Doesnt Live Here Anymore, Alm de Scorsese, h a presena de Fellini.

    Quando o leitor convidado a decidir a moral da histria, as alternativas misturam opes srias e debochadas. A primeira moral, completamente irnica, Bevette pi latte34, que alude musica cantada em As tentaes do Dr.

    Antnio Le tentazioni del dottor Antonio , episdio de Fellini em Bocaccio 70 Na trama, um moralista, o Dr. Antnio do ttulo, tenta censurar um outdoor de leite que mostra uma voluptuosa mulher e quando o. Ao mesmo tempo, interessante que essa expresso tambm citada na pea Sarau das 9 s 11 Depois que um personagem pergunta quando ser aberto o ltimo seio? Em tempo: a pea apresenta poucas relaes com o universo audiovisual, mas faz uma meno rpida s estrelas de cinema.

    A personagem Madame descreve o local em que passou a infncia: Reis destronados, ditadores depostos, envelhecidas artistas de cinema conviviam com magnatas do jet set internacional e conviviam com a antiqussima aristocracia local ABREU, Op. Ento, o guardio da moral e dos bons costumes acaba ficando obcecado pela moa de curvas generosas, a ponto dela se materializar na frente dele.

    No conto, a citao parece funcionar em dois nveis. Por um lado, refora a crtica ao moralismo, aos valores tradicionais. Por outro, cita um filme que incorpora a publicidade em seu discurso o que, de certa forma, Caio, faz no conto Alm de fazer homenagens a diretores, o conto menciona que uma amiga de Sally se chama Gilda. Ento, aqui aparece claramente uma das influncias que marcar a literatura de Caio: o cinema dos anos